Fatos da Ficção
 
 
 


 

Tic! Tac! Tic! Tac! Tic! Tac! Tic! Tac! ..........

Tempo !!!!
Eis um conceito muito interessante!
Quanto tempo vive um ser humano?
Quanto tempo se demora a para percorrer determinada distância?
Quanto tempo .....?
Parece ser uma pergunta que os seres deste planeta fazem constantemente. Demorei muito a compreender este conceito e mais ainda para entender porque os humanos sempre se preocuparam tanto com o tempo.
Simplesmente porque suas existências são finitas.
Estamos no ano de 2044 e muitas coisas mudaram na Terra. O grande deserto de Gobi, agora é uma grande metrópole, a célula mater do chamado Império Solar, fundado pelo astronauta Perry Rhodan há setenta anos.
Muitas coisas estão acontecendo agora. Seres de outra dimensão querem conquistar este Universo, são os Druufs e o Regente Positrônico de Árcon se aproveita desta crise para descobrir a posição da Terra e atacá-la.
Sei como acaba esta história, mas os homens não sabem, pois em seu modo de existir não podem saber o futuro. Até conseguem prever o futuro imediato colocando todas as possibilidades no grande complexo positrônico de Venus, onde o computador, construído a milhares de anos pelos arcônidas, calcula todas as possibilidades com uma margem muito pequena de erro.
Quem sou eu? Apenas uma criatura que vaga na mente dos homens há milhares e milhares de anos..... meu nome?
Alguns me chamam de sonho, outros de pesadelo. Lembro-me que ao final do segundo milênio alguém escreveu uma série de contos sobre Sandman, onde as diversas facetas de minha existência foram proclamadas ao mundo, através de Morpheus e dos Perpétuos, mas é claro que os humanos não sabiam e nem sabem que pode haver no mundo alguém como eu, ou o quanto de verdade havia naqueles contos.

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O homem alto de cabelos amarelos tão claros, que poderiam dizer serem brancos fitava o enorme espaçoporto de Terrânia, capital do Império Solar. Seus olhos avermelhados não viam a maravilha tecnológica pousada há alguns quilômetros. A imensa esfera de dois quilômetros e meio era a nave capitânia de Rhodan. A Drusus, equipada com as últimas novidades tecnológicas do momento. Seus olhos perdiam-se em meditações e reflexões. Sim! Dez mil anos era muito tempo para um humano, muito tempo para se estar sozinho.
Atlan. Este era o nome do homem que observava o espaçoporto com um olhar cheio de saudades. Atlan vivia na Terra há dez mil anos, quando em uma batalha com os Druufs ficou isolado de sua gloriosa espécie. Os Arconidas. Durante oito mil anos ele viveu em estado de hibernação em sua cúpula pressurizada nas profundezas do oceano, de tempos em tempos ele despertava de seu longo sono para observar os progressos da raça humana. Quando o Império Romano surgiu Atlan passou a participar da história da Terra, conheceu várias figuras ilustres e com seus conhecimentos ajudou em muito no desenvolvimento da humanidade.
Por volta de 1970 d.c. quando os habitantes da Terra estavam prontos para se auto destruírem em uma guerra nuclear mundial, Atlan com receio de morrer devido a este ato insensato, retornou a sua cúpula pressurizada e por 70 anos ficou hibernando, e qual seu espanto ao despertar e descobrir que a Terra não se destruíra e que perdera o período de maior desenvolvimento do planeta.
Há quase um ano havia chegado o momento de retornar ao seu saudoso lar. E ele tentou com todas suas forças, mas foi impedido por Rhodan. Os dois quase se mataram, por fim se tornaram amigos, agora Atlan era um de seus preciosos colaboradores. Ele sabia que quando chegasse a hora Rhodan permitiria que retornasse a Árcon.
Mas o arconida apesar de cercado de amigos e de apreciar a companhia dos terranos, por vezes sentia-se muito sozinho.
Um oficial aproximou-se de Atlan e tirou-o de seu estado de meditação, e logo após saíram a passos rápidos.
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O Almirante Atlan entrou em seu modesto apartamento situado em Terrânia após um dia longo e cansativo. Por hábito abriu a janela do quarto e deixou o ar puro entrar. Olhou para fora e deixou-se perder novamente em meditações. Era estranho, mas durante todo o dia, apesar dos imensos problemas que tinham para resolver, foi tomado por uma sensação nostálgica, sentia falta de algo, pensara que eram apenas saudades de seu planeta natal, mas no fundo sabia que não era isso. Com um suspiro profundo afastou-se da janela e começou a tirar o bem talhado uniforme de Almirante Arcônida confeccionado especialmente para ele. Parou para examinar o símbolo do Império Arconida, acariciou o bordado bem feito e o setor lógico de seu segundo cérebro se manifestou, enviando-lhe imagens de vivências de mais de dez mil anos, quando ainda vivia em Árcon. Ele sacudiu a cabeça em uma tentativa de espantar os fantasmas. Colocou a indumentária em um cabide e dirigiu-se ao banheiro, onde seu robô doméstico já havia preparado
seu banho.
Atlan entrou na banheira e deitou-se fechando os olhos. Seus pensamentos ficaram vagando entre os problemas imediatos do Império Solar e banalidades. Rhodan estava prestes a arriscar-se novamente, somente agora, convivendo com o terrano foi que passou a compreender como aquele bárbaro tinha conseguido tanto em tão pouco tempo. Sua determinação era uma característica invejável.
Após o banho e uma refeição leve, Atlan ainda leu o jornal, manteve uma palestra rápida com Rhodan através do vídeofone e foi deitar-se. Em algumas horas partiriam na Drusus em direção zona de descarga do universo Druuf.
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Ele estava em um local desconhecido, ao mesmo tempo que parecia-se com o Palácio de Cristal em Árcon, parecia-se com uma construção terrana também. No salão centenas de pessoas conversavam e riam, por entre elas garçons e robôs circulavam com bandejas, servindo aperitivos e bebidas aos convidados.
Ele notou que espécies de toda a galáxia estavam presentes, com roupas espalhafatosas, sóbrias, mulheres com roupas ousadas, criaturas com vários braços, peles rugosas, altas, baixas .... tudo exótico e exuberante.
A diante ele viu Rhodan e seu grupo conversando animadamente. O Administrador do Império Solar segurava uma taça e sorria para seu interlocutor, Reginald Bell, que também estava presente no grupo e parecia diverti-se muito.
- E então arcônida? - perguntou Rhodan ao vê-lo se aproximar. - Aposto que não esperava por isso?
- Realmente não! - respondeu, ainda sem entender direito o que se passava.
- Em alguns momentos receberá a coroa e o cedro e esperamos que não se esqueça de seus amigos bárbaros. - disse Rhodan um pouco sério, logo a seguir ergueu a taça, gesto que foi imitado por Bell e Alan Mercant - A sua saúde meu amigo, que seu reinado seja longo e próspero.
Sem entender nada Atlan brindou com seus amigos. Logo a seguir foi afastado do grupo por um austero arconida, que lhe falava sobre o futuro do Império e dos diversos povos que o formavam, foi neste momento que ele viu a criatura mais linda do universo. Todo o salão pareceu mover-se em camera lenta, apenas aquela moça sorrindo se movia. Era um sorriso meigo e franco, seus olhos pareciam brilhar. Há muito tempo ele não se sentia atraído por uma mulher. Precisava conhecê-la.
- Quem é a jovem? - perguntou para o arconida que o acompanhava.
- Ninguém por quem vossa alteza deva interessar-se - respondeu o velho em tom de reprovação e arrastando-o para o outro lado do salão.
Durante toda a noite ele procurou encontrá-la novamente, mas sempre que estava se aproximando, alguém aparecia para afastá-lo. Era secundário aquela história de coroação, ele jamais poderia ser o Imperador de Árcon.
De repente uma música suave preencheu o ambiente, casais se formaram e sem saber como ele dançava em meio salão com uma bela arcônida. Ele nem prestava a atenção na mulher que tinha nos braços, a cada volta seus olhos percorriam o salão na esperança de vê-la novamente.
Ao longe Bell olhava-o estupefado.
- O que há com Atlan? - perguntou a Alan - Até parece que está dançando com um pedaço de pau.
Com uma volta suave os homens começaram a trocar suas parceiras e ele se viu dançando com uma mulher de meia idade que falava de forma afetada, um verdadeiro martírio, mais uma volta e de repente ela a tinha nos braços.
Ela era leve, seus pés nem pareciam tocar no chão. Pensou em milhão de coisas inteligentes para falar-lhe e outro milhão de bobagens também, na ansiedade acabou com a segunda opção
- Você é a mulher mais linda que já vi em toda minha vida. - disse. A moça olhou com um sorriso arteiro a brincar em seus lábios, e não se conteve. Começou a rir de modo natural e franco. Foi então que ele se tocou da bobagem que havia dito, era óbvio que em dez mil anos já havia visto mulheres mais bonitas, ficou um tanto encabulado, e o nervosismo o levou a rir também.
- Foi tão ruim assim? - perguntou.
- Hum! Hum! - respondeu a moça.
- Vamos começar de novo. - disse Atlan tentando consertar a bobagem que havia dito. - Está um sol lindo lá fora. Ela olhou de soslaio para ampla sacada onde o seu estava coberto por um lindo manto de estrelas.
Ela começou a rir novamente, neste momento deram mais uma volta e mudaram de parceiro. Ele nem viu a mulher que tinha a sua frente, só pensava que a havia perdido para sempre após todas aquelas frases tolas.
- O que há com você arconida? - perguntou Bell sorrindo e aproximando-se de Atlan - Em dez mil anos não aprendeu a conquistar uma garota?
- Deixe-me em paz gorducho - respondeu chateado, afastando-se.
Ele estava na sacada. Lá dentro a festa acontecia animada, mas ele se sentia sozinho e desanimado.
- Peço desculpas pelo que aconteceu lá dentro! - escutou uma voz suave e baixa a suas costas. Quando ele se virou ela estava lá, sorrindo e oferecendo-lhe uma taça.
Do jeito que a coisa estava indo era melhor ficar de boca fechada, pensou. Ele pegou a bebida e tomou um longo gole.
- Eu é que devo pedir desculpas. - disse a seguir - Não sei onde estava com a cabeça. Foi realmente patético. - completou rindo com o papel ridículo que havia feito.
- Não parece muito a vontade em sua nova posição. - disse a moça
Ela sorriu, aparentemente se sentia tão atraída quanto ele. Ficaram um bom tempo em silêncio, apenas se olhando, um momento perfeito, sem cobranças, sem exigências, era como se não tivessem mais nada a fazer no Universo, a não ser contemplarem-se.
- Até agora não compreendi como isso aconteceu. - respondeu com toda a sinceridade.
- É o que deseja, talvez não tenha consciência disso, mas no fundo gostaria de se tornar o Regente de Árcon. - respondeu a jovem, sentando-se ao seu lado.
- Gostaria! - disse surpreso - Então não aconteceu, o que é isso então? - completou virando o rosto para o lado do salão onde todos se divertiam.
- Apenas o seu desejo! - respondeu a moça.
- Não compreendo! Se isso é apenas a manifestação de meus desejos, a conclusão lógica é que nada aqui é real.
- Isso depende exclusivamente de você. O quanto deseja que seja real?
O silêncio pairou novamente entre eles. Realmente ele brincara com aquela idéia, não daquela forma, mas sonhara com o momento de desativar o Regente Positrônico e assumir ele mesmo o posto, e trazer de volta toda a glória do Império Arconida.
- Você também não é real? - perguntou mais para si mesmo do que para ela, em algum lugar sentiu-se triste, pois ela representava a personificação da mulher ideal, segundo sua concepção é claro.
Ela não respondeu, mas estendeu a mão em direção ao seu rosto, era macia, quente, com a ponta dos dedos percorreu sua face suavemente. O gesto parou próximo aos seus lábios e com o polegar ela os acar
iciou.
- Dez mil anos é muito tempo para se estar sozinho! - disse em voz baixa, como se lesse seus pensamentos.
Durante todo aquele tempo é claro que houve mulheres, mas nunca se envolvera realmente. Precisava proteger-se, ninguém devia saber de sua existência na Terra. Sempre tivera receio de apaixonar-se por uma mulher da Terra, e das conseqüências que poderia trazer uma paixão ... de seus frutos.
Perdeu-se em recordações de um tempo há muito distante. Houveram muitos momentos de prazer, mas foram momentos quase que vazios, com sentimentos controlados, paixões contidas.
Sentia seu coração bater fora de compasso por aquela moça, não era apenas desejo carnal, era muito mais. Era o tipo de coisa que acontecia uma vez em um milhão, aquela era a primeira vez que a via, mas tinha certeza de que a amava, tinha certeza de que por ela mataria, trairia, faria qualquer loucura.
- O que está acontecendo? - perguntou novamente, com receio de que tudo aquilo pudesse acabar, com receio de perdê-la, uma tentativa de descobrir o quanto aquilo duraria.
- Tudo aquilo que você mais deseja ... - respondeu com um sorriso.
- Uma realidade alternativa? Uma outra dimensão? - perguntou
- Já ouviu falar de Morpheus? - perguntou a moça, olhando para além da murada, para além do horizonte.
- Estou sonhando! - respondeu com visível entusiasmo, por ter chegado a conclusão lógica.
- Hum! Hum! - foi a resposta que ela lhe deu.
- Então quando eu acordar você terá partido. - constatou a seguir com uma enorme tristeza, pois ele não queria que ela se fosse, queria acordar sentindo seu perfume, sentindo seu calor. Queria passar o dia trabalhando, lutando para manter os Druufs longe do sistema solar e do Universo Einsteniano, mas ter a certeza de retornar para casa e encontrá-la lá. Queria ser o Imperador de Árcon, mas tê-la ao seu lado, para dar-lhe animo, forças ....
Desejo e Desespero, dois sentimentos tão próximos. Ele não queria acordar, queria ficar ali para sempre. Mas era um homem prático e realista, Rhodan precisava dele, Árcon precisava dele.
********
Estava na praia, a medida que caminhava sentia seus pés afundarem na areia macia. Como fora parar ali, ainda há pouco estava em uma festa .... engraçado mas a festa de sua coroação parecia algo tão distante, irreal.
E que praia era aquela? Ele olhou ao redor e até onde sua vista podia alcançar não viu uma viva alma. Desanimado sentou-se na areia e ficou observando o mar. Era como se toda a solidão dos 10 milênios que passou na terra se abatessem dele naquele momento.
Sua mente fotográfica, ameaçava torturar-lhe forçando-o a se lembrar de sua longa jornada pela terra. Sua cabeça doía e a vista ficava turva, volta e meia o mar a sua frente desaparecia, dando lugar a acontecimentos de seu passado. Sabia que não podia permitir que isso acontecesse, sozinho naquele lugar, tais lembranças poderiam levá-lo a loucura. E ele tinha medo de ficar louco, tinha medo da morte.
Ele colocou a mão sobre o peito e sentiu o ativador celular sob o tecido leve da camisa. Que destino impiedoso era aquele, que o colocara frente a frente com a criatura que lhe dera o Ativador Celular? Porque somente ele, dentre tantos de sua espécie sobrevivera a catástrofe que quase destruíra Larsaf? Porque somente ele, devia vagar por aquele mundo estranho por tantos anos.
Com um gesto insano arrancou de seu pescoço o colar que prendia o precioso aparelho e atirou-o com toda sua força para o mar. Por um tempo ficou ali olhando o mar levar embora o seu bem mais precioso. A sua vida.
Sentia-se cansado, queria morrer ... e com esta firme intenção deitou-se novamente na areia, encolheu-se sobre o próprio corpo.
Quando despertou não estava mais na praia, com um gesto instintivo procurou o aparelho em seu peito, estava ali, podia sentir a vibração que renovava suas células.
Estava com a cabeça apoiada no corpo de uma pessoa, e seu coração acelerou-se ao sentir o perfume suave, o perfume de uma jovem que conhecera há muito tempo, ou fora apenas há alguns minutos?
Ela acariciava-lhe os cabelos. Ele não lhe deu conhecimento que despertara, sentia-se confortado, relaxado, temia mexer-se a acabar com aquele momento. Podia sentir sua pela macia e morna sob o tecido.
O quarto tinha um leve aroma floral. Não estava bem iluminado, na posição em que se não era possível ver, mas tinha certeza que a fraca iluminação era proporcionada por velas.
- Sente-se melhor? - perguntou a moça, com sua voz suave.
Ele sentou-se e ficou olhando-a. Usava um vestido simples, muito branco, o decote não muito pronunciado, mostrava apenas uma pequena parte dos seios. Ela sorriu e com uma das mãos contornou seu rosto novamente, parando nos lábios como da outra vez.
Ele pegou sua mão, parecia tão pequena, tão frágil e beijou-a suavemente.
- Porque quis morrer? - perguntou, referindo-se ao episódio da praia. Ele ficou surpreso, pois não imaginara que ela soubesse.
- Não sei! - respondeu com sinceridade. - De repente me senti velho demais, cansado ...
- Sozinho .... - completou em voz baixa.
- Sim! Muito sozinho, temi a loucura, o Delírio, por isso desejei a Morte.
- Não! - disse com um sorriso. - Quis morrer porque não pode morrer.
- Isso não faz sentido. - respondeu Atlan. Sentia uma vontade enorme de tocá-la, sentir sua pele, mais uma vez constatou que aquilo não era algo puramente sexual, em algum lugar de sua mente, percebeu que aquele não era um sonho comum, como tantos outros que já tivera em sua longa vida.
- Quando chegar o momento fará. - respondeu segurando sua mão.
Como um adolescente ele tocou em seu rosto, de repente foi tomado de uma enorme timidez e hesitação. Era como se aquela fosse a primeira vez que tinha uma mulher a sua frente.
Ele contornou seu belo rosto com a ponta dos dedos, da mesma forma que ela o fizera. Seu coração batia descompassado, de repente pareceu-lhe difícil respirar.
- Quem é você? - perguntou em voz baixa.
- Desejo - respondeu ela olhando em seus olhos.
- Quer dizer que pode realizar meus desejos? - perguntou novamente, tentando compreender o que estava lhe acontecendo.
- Desejos não podem ser realizados. - respondeu sorrindo - São apenas esperanças que residem no plano da imaginação.
- Então estou delirando! Devo estar muito doente, por isso não consigo acordar. - respondeu Atlan tentando desesperadamente encontrar uma solução para aquele enigma.
Ela sorriu novamente. Fez-se um breve silêncio entre eles.
- O Delírio é apenas a antecipação da satisfação que a realização do Desejo lhe trará. - respondeu.
- Não compreendo. - disse Atlan.
- Quando chegar o momento compreenderá.
*****
******
Estavam na praia novamente, caminhavam lado a lado. Vez por outra suas mãos se tocavam timidamente.
Ele lhe contou sobre os Druufs e as grandes naves arconidas que protegiam a zona de descarga. Lhe contara sobre sua gloriosa raça que havia degenerado e que hoje vivia sob as ordens do Regente Positrônico.
Sem as inibições normais do dia a dia, revelou-lhe que tinha vergonha de sua espécie. Aqueles terranos bárbaros, valiam mais do que qualquer Arconida e isso o entristecia, por isso desejara ser Imperador de Árcon, fantasiava com a idéia de devolver a glória e honra para o seu povo.
- Escolheu o caminho da solidão! - foi o seu comentário. - Um caminho muito árduo.
- Já estou acostumado . - foi sua resposta.
- Pensa que está, caso o contrário não estaria aqui. - respondeu a moça. De repente ela saiu correndo a sua frente. Ele foi atrás e os dois correram livres pela praia, como duas crianças. Era bom sentir a brisa em seu rosto, a areia sob seus pés, o frescor da água.
Com muito esforço ele conseguiu alcança-la e os dois caíram sob a areia macia, ofegantes e rindo. O contado de seus corpos quentes era muito agradável. Ficaram por longo tempo deitados na areia, apenas se olhando, como se quisessem gravar cada detalhe daquele momento. Ao longe o sol começava a se por.
Atlan tocou-lhe o rosto suavemente, brincou com seus cabelos sedosos, sentia o desejo tomar conta de seu corpo. Aproximou-se mais dela, de repente naquele momento um milhão de bobagens passaram por sua mente, sua idade, seu físico, suas cicatrizes. Temia desagradá-la de alguma forma, temia ser rejeitado.
Ele aproximou-se mais e a beijou. Ela não parecia ter pressa, sentiu suas mãos pequenas e quentes em sua nuca e depois descendo pelas suas costas, animado percorreu também seu corpo, sentindo cada curva cada detalhe sob o tecido.
Com muito custo se conteve. Desejava-a com tanta intensidade que chegava a doer, se dependesse apenas de sua vontade, arrancaria sua roupa e a possuiria ali mesmo. Mas conteve-se, deixou-se guiar pelo seu rítmo.
Por longo tempo ficaram apenas se beijando e se tocando. Então ela começou a desabotoar sua camisa, expondo-lhe o tórax, por uma fração de segundos ele lembrou-se da horrível cicatriz que trazia no estômago. Mas esqueceu-se logo a seguir deste detalhe e entregou-se aos prazeres de seu contato cálido. Incentivado ele abriu-lhe o vestido, tirando-o devagar, expondo os seios pequenos e alvos ....
Nem viram a noite chegar, amaram-se ternamente, várias vezes, depois exaustos ficaram deitados sob a areia olhando o céu estrelado.
- Isso foi real, não foi? - perguntou Atllan.
- Todo sonho é real. - respondeu a moça.
- Quando eu acordar, ainda estará ao meu lado? - perguntou
- Não! - disse simplesmente.
- Quem é você? - perguntou de novo.
Não respondeu de imediato, seus olhos se perderam nas estrelas. Então ele compreendeu que ela era infinitamente mais velha do que ele.
Diante de seus olhos viu aquele belo corpo murchar, enrugar-se. Os belos olhos azuis perderam seu brilho e enterraram-se nas órbitas. Ela virou-se para contemplá-lo. Os lábios vermelhos como rosas que ainda pouco beijara ardentemente transformaram-se em um sorriso desdentado.
- Sou Desespero! - respondeu com a voz rouca.
******
Novamente a paisagem mudou! Um cheiro ocre, adocicado e desagradável penetrou em suas narinas, ele olhou ao seu redor e viu centenas de corpos espalhados pelo chão. Que campo de Batalha seria aquele?
De repente sua armadura pareceu pesar uma tonelada e ele deixou-se cair de joelhos, humanos estúpidos, pensou, ao invés de matarem-se deviam canalizar suas energias para coisas mais produtivas.
Porque ele havia lutado também? - perguntou-se. Alguém começou a tocar uma harpa ao longe. Era uma música triste, uma melodia cheia de sentimento, cada acorde soava como um lamento pelos mortos. Sentiu lágrimas em seus olhos ... mas o que era aquilo? Um arconida não chorava!
Mas ele estava chorando, chorando pelos seus amigos mortos ... chorando por ele mesmo.
Pessoas começaram a caminhar entre os mortos, recolhendo-os, moviam-se devagar, com pesar. Passavam por ele e era como se ele não estivesse lá. Sozinho!
Apoiado em sua espada, baixou a cabeça sobre a mão e ficou ali, inerte, sentindo sua tristeza. Passos se aproximaram dele, mas ele não queria que ninguém o visse naquele estado de prostação, era um arconida! Uma raça orgulhosa de suas conquistas, não podia permitir que aqueles bárbaros o vissem naquele estado.
- Venha! - seu coração acelerou-se, conhecia aquela voz. Ele levantou a cabeça e ela estava ali, a pequena mão estendida em sua direção, os olhos azuis fixos nele .... sua veste branca como a neve contrastava terrivelmente com as cores do campo de batalha! Seu perfume destacava-se dos odores da morte.
- Aonde vamos? - perguntou.
- É costume enterrar os mortos. - respondeu.
- Estou morto? - perguntou, surpreso!
Ela apenas sorriu de um modo compreensivo.
Continuaram caminhando entre os corpos até saírem da clareira, caminharam em silêncio, por longo tempo, através de uma trilha. Ela guiava-lhe os passos, o contato com sua mão quente e úmida pareciam ser a única coisa real.
De repente uma enorme planície surgiu a sua frente e seu coração se encheu de alegria ao reconhecer o mundo de cristal.
Finalmente, após tantos anos ele regressava ao seu mundo. Os enormes cones, erguiam-se do solo verde, a parte mais estreita fincada no solo .... quantas saudades.
Ele soltou a mão da moça e caminhou alguns passos a sua frente. Não trajava mais a pesada armadura, ao longo da trilha, em algum momento suas vestes haviam se transformado em simples trajes arconidas.
Ele olhou para a moça, e sorriu, um sorriso franco e feliz .... finalmente após dez mil anos ele estava de volta ao seu lar.
Correu como uma criança, rolou na grama verde, sentindo seu cheiro, sua umidade ... cheiro de casa ... e chorou de felicidade.
****
Estava deitado no chão, com a cabeça apoiada no colo da bela moça. Um riacho de água cristalina corria há uma pequena distância. Tudo era perfeito. Ela acariciava-lhe os cabelos dourados, quase brancos.
Sentia-se o mais abençoado dos homens, estava em casa! E em sua companhia a criatura mais terna e perfeita que o Universo poderia conceber.
- Diga que esse momento não vai acabar! - disse para a moça, enebriado com seu perfume, com seu contato.
- Momentos não acabam! - respondeu com um sorriso - momentos passam.
Ele sentiu-se relaxar e literalmente adormeceu nos braços de Morpheus.

 

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Última Modificação: 17 Novembro2002