Expansão
Por
Marcos de Chiara
“Sempre
me perguntei se o que
fiz foi o bastante.
Nunca imaginei de chegar
aonde cheguei e nem
que seria idolatrado
por milhões de
pessoas. Nunca gostei
da fama, pois ela acaba
com a nossa privacidade.
Quanto ao dinheiro ele
sempre foi bem vindo.
Isto porque ele faz
nossos sonhos virarem
realidades. Acompanhei
o fim de uma era e o
início de outra.
O mundo que conheci
não existe mais,
somente nos livros de
história onde
agora eu também,
por uma mais louca ironia,
estou incluído.
É claro que os
meus defeitos foram
suprimidos e minhas
poucas qualidades foram,
digamos, exageradas.
Mas não é
isto que ocorre com
os mitos?
Desde que fizemos contato
com uma inteligência
alienígena, o
horizonte da humanidade
aumentou em duzentos
por cento. Naquela época
o mundo estava, para
variar, em guerra entre
dois grandes blocos
político-econômicos.
Eu estava, entre um
gole e outro, tentando
tocar um projeto que
tinha sido cancelado
pelo governo junto com
outros amigos cientistas.
Alguns colegas queriam
dar uma nova chance
para humanidade porque
já sabíamos
da existência
de planetas habitáveis
fora do sistema solar;
outros queriam uma chance
de fugir daquela loucura
toda e eu... Eu pensava
na grana que a minha
patente sobre o projeto
iria render.
Hoje, anos depois, eu
custo acreditar em tudo
o que aconteceu. Num
momento eu era uma mosca
se afogando numa garrafa
de uísque, no
outro me tornei o maior
engenheiro espacial
do planeta e sendo cultuado
galáxia a fora.
Nem tudo foi um sucesso
após o meu feito.
Toda nova etapa de um
programa espacial tem
os seus erros e catástrofes,
como o lamentável
incidente da perda da
S.S.Valiant. A história
da conquista espacial
está cheia destas
histórias como
a Apollo 13, a Challenger,
a Mars Observer e a
Charybdis, mas nem por
isso o homem deixou-se
abater.
Lembro-me que durante
a guerra achávamos
que a humanidade estava
fadada à extinção.
Eu mesmo acreditava
nisso entre um copo
e outro. Muitas nações
foram fragmentadas,
isto sem falar na economia
mundial. A cooperação
científica internacional
ficou cada vez mais
rara até deixar
de existir. A mídia
ficou desacreditada
e, para saber de notícias
somente através
de rádio amadores,
fofocas ou por cartas
de parentes e amigos.
Um jornalista era visto
como espião e
poderia ser morto. Muitas
coisas aconteciam sem
que o mundo soubesse.
Qual não foi
a minha grande surpresa
quando o primeiro contato
foi rapidamente divulgado
no mundo todo.
Foi um momento, encarado
por muitos, como a redenção
da humanidade. Era a
hora de reavaliar os
nossos valores e qualidades
como uma espécie
merecedora da sua existência
no universo. A humanidade
se uniu. As barreiras
sociais, raciais, ideológicas
e religiosas foram rompidas.
Uma idade de luz abrangeu
todos os povos. Pela
primeira vez um só
pensamento ecoou no
nosso planeta. Não
era aquela baboseira
de globalização
do final do século
vinte, mas o reconhecimento
que somos um só
povo, uma só
espécie e não
a única no cosmo.
Os vulcanos nos deram
uma grande esperança.
Achávamos que
iriam nos apresentar
a comunidade cósmica
logo de cara, mas não
foi assim que a coisa
se deu. No início
foram muito reticentes,
arredios, desconfiados
até se éramos
merecedores de sermos
apresentados às
maravilhas do universo.
Eu não os culpo.
A nossa história
nos condenava. Principalmente
quando duas culturas
estranhas se encontravam
pela primeira vez. Lembram
dos primeiros europeus
na América e
como eles dizimaram
os indígenas?
Era evidente que agora
os índios éramos
nós e toda aquela
paranóia hollywoodiana
de sermos dizimados
ou conquistados pelos
aliens passou pelas
nossas cabeças.
Todavia os vulcanos,
para a nossa sorte,
não eram como
nós. Quando a
humanidade percebeu
que estávamos
prestes a entrar em
um novo limiar da história
e que participaríamos
de uma irmandade cósmica;
uma sensação
de paz e harmonia percorreu
o espírito de
todos. Era a era de
Aquário que os
hippies do século
vinte preconizavam.
Uma conseqüência
óbvia foi a criação
de um governo planetário.
A Federação
da Terra foi composta
por sete conselheiros.
Na verdade seis representavam
os continentes da Terra
e o sétimo era
uma espécie de
ministro de relações
extra-planetárias.
Durante esta modificação
política me convidaram
para ser o embaixador
da Terra. Durante muito
tempo só haviam
me convidado para me
retirar dos lugares.
Nunca tive saco com
politicagens. Eu recusei
a princípio,
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mas depois vi que seria
uma maneira de aprender
novas tecnologias com
outras culturas. Agarrei
a oportunidade.
Foi um período
muito intrigante. Todos
pareciam querer viver
em harmonia e para o
bem comum. A corrupção
foi diminuindo até
desaparecer. As mentiras
voltaram a ser coisas
de criança. Tudo
parecia dar certo. Houve
uma nova ecomia onde
a distribuição
de renda era bem organizada.
A fome e as guerras
foram abolidas pouco
a pouco. Era algo inacreditável.”
Cóff... Cóff...
Computador parar gravação.
Maldito respirador!A
cada momento fica mais
difícil respirar.
Sei que se retirar os
aparelhos eu não
duro dois segundos.
Quero antes de tudo
ter o seu fim deixar
um registro completo
do que aconteceu sobre
a minha ótica.
Um dia quando esta gravação
for recuperada deverá
ser de algum valor para
nossa história,
pois jamais falei sobre
com algum escritor ou
jornalista. Sempre tive
aversão à
eles. Agora torno-me
um deles! Sou um discípulo
da ironia... Cóf...
Cóf... Cóf...!
Computador... Recomeçar
a gravação...
“Onde parei? Ah,
sim... A nova Restauração.
Os religiosos ganharam
muitos fiéis,
mas não houve
uma nova inquisição.
A pessoa comum recuperou
a esperança e
a fé, cada qual
em sua crença,
num exemplo de tolerância
religiosa invejável.
A grande utopia tinha
início e todos
tinham uma idéia
fixa, um sonho comum
a realizar: viajar para
as estrelas.
Havia entre nós
muita gente amargurada
e ressentida com a guerra
e outros eram pessimistas
achando que aquela paz
toda não iria
durar. Seja qual for
o motivo, todos queriam
uma chance de sair do
planeta e encontrar
outro onde poderiam
criar a sociedade de
seus sonhos. Foi então
que a expansão
começou.
Um amigo vulcano chamado
Sven certa vez me disse
que uma espécie
tão curiosa como
a nossa cedo ou tarde
iria se espalhar pela
Via-Láctea. Ele
mesmo conhecia vários
mundos onde a presença
de humanóides,
parecidos conosco, era
comum. Ficou intrigado
por não termos
conhecimento de tal
fato.
Quando fiz o primeiro
vôo com a Phoenix,
eu não havia
pensado que iria detonar
um processo de escala
planetária; muito
menos que iríamos
nos espalhar pela galáxia
tão rápido.
Como Sven me ensinou
certa vez, nós
estávamos em
uma etapa de um processo
natural pela qual muitas
civilizações
já passaram e
a expansão era
algo inevitável.
Acredito, porém,
que Sven jamais tinha
conhecido uma civilização
tão neurótica
como a nossa.
Além dos descrentes
e dos pessimistas existiam
também os curiosos
e os ambiciosos. Imaginem
o que seria encontrar
um planeta inteiro com
recursos inexplorados.
Uma febre irrompeu entre
aqueles que fariam qualquer
coisa para sair da Terra.
Quatro anos após
a chegada dos vulcanos
começaram a surgir
fábricas de naves
espaciais em todos os
cantos do planeta. Os
propósitos eram
diversos: colonizadores,
militares, científicos,
religiosos, comerciais
e até turísticos.
As primeiras naves foram
batizadas com nomes
de políticos,
artistas e de corporações.
Certa vez fui convidado
para batizar uma com
o nome de Elvis! Nela
ocorreria o primeiro
concerto de rock no
espaço. Seria
algo como uma Woodstock
sideral! Eu não
poderia perder uma dessas!
Foi muito engraçado
assistir as pessoas
dançando sem
gravidade ou com sapatos
magnéticos. Naquele
tempo ainda não
tínhamos resolvido
como criar uma gravidade
artificial.
Quando estávamos
prontos para o êxodo
selecionamos algumas
estrelas para procurar
novos lares: Vega, Eridani,
Alpha Centauro, 51 Pegasus,
47 Ursa Maior, 70 Virgem,
Arturus, Altair e Barnard
foram as primeiras.
Nos vinte anos que se
seguiram colocamos duas
estações
orbitais na Terra, colônias
na Lua e em Marte; catalogamos
quase duzentos sistemas
solares novos, onde
, pelo menos dez, tinham,
ao menos, um planeta
com condições
de colonização.
Meu amigo John Burke,
o astrônomo, gostava
de dizer: “ Se
existe algum propósito
para a existência
humana era de espalhar
nossas sementes pelas
estrelas”. E assim
foi feito.
As colônias se
multiplicaram pela galáxia.
Uma delas foi em um
planetóide em
Alpha Centauro onde
residi nos últimos
trinta anos.
A humanidade parecia
ter encontrado o seu
caminho. Cabe agora
a mim encontrar o meu.
Cóf...Cóf...Cóf...
Bom, seja lá
o que foi a real motivação
das tribos que deixaram
a Terra, eles fizeram
um bom trabalho e, deixaram
mais espaço para
que os terráqueos
consertassem o que tinham
estragado. A grande
navegação
espacial repetia os
feitos dos navegadores
europeus do século
XV. A Astronáutica
era a ciência
da moda. As indústrias
que mais cresciam eram
a de foguetes e naves
espaciais. No meio desta
avalanche estava eu.
Um ídolo da nova
era. Quase virei uma
religião. Detesto
bajulação
e idolatria, mas isto
não pude evitar.
Por mais que protestasse
meus resmungos não
eram ouvidos. Estátuas
e bustos foram erguidos
em minha homenagem por
todo o canto. Deram
meu nome para ruas,
avenidas, escolas, universidades,
centros de pesquisas,
e para recém-nascidos.
Foram 1235 batizados
que tive que comparecer
nestes anos todos. Não
foi uma coisa fácil.
Para o registro... Fiquem
sabendo que tive uma
vida bastante interessante.
Passei por diversas
fases: playboy, cultural,
educacional(ensinei
engenharia de dobra
espacial por 40 anos),
política(quem
diria) e até
religiosa(isto é
muito comum quando o
fim se aproxima). Pude
ser muitos homens, mas
no fundo nunca deixei
de ser um jovem engenheiro
pirado e descrente do
mundo e da condição
humana, tendo como companheiros
uma garrafa de uísque
e um bom hard rock para
ouvir.
Agora eu procuro a paz.
Não aquela em
uma casa de campo num
final de semana ou em
algum quarto de hotel
após uma conferência.
Eu digo a paz definitiva.
Aquela para a qual me
julgo preparado. O encontro
com o criador. Se é
que ele existe.
Acredito que esta minha
atual busca tenha haver
com meu estado de saúde.
Tenho um rim e um pâncreas
artificial. Alguns bio-chips
controlam meus batimentos
cardíacos bem
como minhas funções
respiratórias.
Minha juventude me abandonou
há muito tempo
e o prazer por novas
descobertas também
já se foi. Penso
que já fiz muito
pela humanidade e até
por mim mesmo.
Nas estrelas espero
encontrar o meu fim.
Fugi de tudo e de todos
para estar aqui. No
meio do nada e no meio
de tudo.
Computador... Parada
total.
Vou navegar por inércia
até os sistemas
falharem ou até
os meus sistemas falharem.
Este depoimento deverá
ter algum valor futuro
para alguém completar
a minha biografia em
alguma enciclopédia
digital. Fim do registro.”
Sinto que o ar me falta.
O suporte de vida está
caindo... è difícil
raciocinar...pensar...Só
quero ficar quieto e
em silêncio. Talvez
observar as estrelas
brilharem até
dormir o mais justo
do sono.
Mas...espere... vejo
uma luz...uma luz incomum...ela
está vindo em
minha direção.
Ela é tão
bonita! O que será?
Um anjo? Deus? Será
que a minha hora chegou?
Será uma alucinação
ou um sonho?
A luz é colorida.
Não é
um túnel como
alguns dizem. Será
que a morte é
assim? Que belo momento!
Uau, que visual!(...)
Zefram Cochrane,
o criador da dobra espacial,
foi dado como desaparecido
em 2117. Seu corpo nunca
foi encontrado.