Fatos da Ficção
 
 
 

 



 

Batkane

Manobro o meu velho mustang vermelho e estaciono junto a uma cerca de madeira, toda entrelaçada por plantas. É primavera, pequenos botões de flores começam a brotar. O perfume se alastra no ar.

Me encontro em frente de uma típica casa americana, nas imediações do bairro do Brooklin em Nova York. A fachada é toda feita em madeira, pintada de branco, com um extenso jardim na frente com a grama bem aparada. Olhando em volta, percebo que todas as casas são muito parecidas.

Na rua, as crianças brincam alegremente sob os últimos raios do sol no entardecer.

A propósito, o meu nome é Daryl Fisher. Eu sou uma escritora. E o que me traz até aqui hoje, neste belo final de tarde de uma sexta-feira é uma entrevista. Eu fui contratada por uma das m maiores editoras de Comics dos Estados Unidos para escrever um livro sobre os criadores, roteiristas e desenhistas dos seus maiores sucessos na área dos quadrinhos.

Então decidi começar por aquele que eu considero o maior de todos. Esta casa pertence ao criador de uma das maiores lendas das histórias em quadrinhos, o Batman.

Pego o meu bloco de anotações e o gravador no banco do passageiro. Quando saio do carro, experimento a agradável sensação de calor na minha pele produzida pelo calor do sol poente.

Antes que eu chegue ao portão, a porta da casa se abre e de dentro dela sai um enorme pastor alemão seguido de um garotinho ruivo muito bonito. Ele olha para mim e sorri. Eu retribuo o sorriso e digo que estou procurando por Bob Kane.

O garotinho vai correndo até a porta e grita: “Vovô, tem uma moça bonita procurando você !” Logo em seguida aparece um homem de idade, calvo e com um enorme bigode preto emoldurando um sorriso maior ainda. O ruivinho abre o portão e eu entro fazendo festa no fucinho do cachorro que não para de pular em cima de mim animadamente.

O homem se aproxima estendendo a mão, “Olá, sou Bob Kane, e o sardento aqui é meu neto, Rusty. Você deve ser a escritora que a DC mandou ...” Apressei em apresentar-me ; “Daryl Fisher, muito prazer !”

E é muito prazer mesmo, imaginem que eu estou conhecendo nada mais, nada menos, do que o criador do maior herói de quadrinhos da minha infância. Sim, não é porque eu sou uma mulher, que eu não curtia histórias de super-heróis. Fiquem sabendo que os quadrinhos não são nenhum “Clube do Bolinha”, onde meninas não entram. A prova disso que um dos personagens que fazem maior sucesso entre o público feminino é “Conan, o Bárbaro”, criado pelo já falecido Roberto E. Howard.

É claro que a mamãe chiava muito com isso, mas levando em consideração que esse meu gosto me levou a conhecer muitos meninos, até que ela não devia ficar tão chateada.

Bob me convidou para entrar. O interior da casa não sai fora da linha de seu exterior, é muito aconchegante. Do fundo da sala dá para se avistar uma lareira, em cima dela um jogo de porcelana trabalhada muito bonita. No centro da sala, uma pequena mesa de carvalho, também toda trabalhada, com um bonito arranjo de flores em cima. Através das cortinas passa uma soave claridade que da um sentimento de profunda paz ao ambiente.

Bob apontou para uma porta do lado direto da sala e disse: “Vamos até o meu escritório, lá vamos ficar mais a vontade”. Eu o segui sem fazer cerimônias.
O escritório de Bob é uma enorme sala com grandes portas e janelas com vitrais, que dão em um jardim florido, com um pequeno chafariz ao centro. Além da grande escrivaninha de carvalho, há uma prancheta de desenho, ladeada por um arquivo de ferro e uma mesa cheia de material de pintura; lápis, tintas, réguas entre outras coisas. Nas paredes uma série de quadros e posters das capas das primeiras revistas do Batman. Desenhos, rascunhos e muitas fotos. A maior parte é em preto e branco, coisas muito antigas mesmo.

Bob me convidou à sentar em um enorme sofá de couro marrom. “E então, você gostou ?” ele me perguntou abrangendo o lugar com um gesto do braço. “Se gostei, respondi, eu adorei !”.

“Ótimo”. ele foi até uma pequena geladeira e trouxe duas cervejas geladas. “Muito bem moça, agora que estamos bem instalados e devidamente refrescados, por onde começamos ?”

Eu adoro isso em um homem. Direto ao assunto, sem rodeios. Liguei o meu gravador e preparei o bloco de rascunhos.
“Bob, inicialmente eu queria saber de onde surgiu a idéia do Batman ?”

Bob se levantou e foi até a parede, onde ficou olhando para uma fotografia. “Daryl, o que você me diria, se eu lhe dissesse que o Batman realmente existiu, não só ele, mas também o seu maior inimigo, o Coringa ?”

“Diria para você mudar a marca da sua cerveja, ou larga-la de vez”. Ele deu uma sonora gargalhada e tirou da parede a fotografia que estava olhando. Entregando-a para mim, cruzou os braços e ficou com um sorriso maroto no rosto.

A foto devia datar da década de 30, devido ao vestuário e a impressão muito antiga. Ela mostrava um homem muito elegante, alto, cabelos pretos cortados rentes e olhos azuis muito penetrantes. Um homem realmente bonito que poderia se encaixar em qualquer época sem nenhum problema. Intrigada, perguntei à Bob quem era aquele homem. Ainda com aquele sorriso maroto, ele respondeu simplesmente:
“Bruce Waine.”
“Você não pode estar falando sério, eu disse ainda com o retrato em minhas mãos”.
“É claro que eu estou, ele foi até a parede novamente e retirou outra fotografia, adivinhe quem é este.” No outro retrato havia um homem de cabelos claros, com um rosto muito branco e um sorriso sardônico estampado nele, trajando um fraque, com uma cartola em uma mão e um leque de baralho na outra, como se estivesse fazendo um truque de mágica.
“O Coringa, falei baixinho”. Bob se sentou outra vez ao meu lado e ficou olhando minha cara espantada. Também não era para menos, imagine só você descobrindo que o seu herói de infância era de verdade, que tinha existido realmente.

De repente eu me dei conta de que estava ouvindo um história que não tinha sido contada nunca. Por que Bob estava fazendo isso justamente agora, e por que para mim ? Foram essas as dúvidas na minha mente que coloquei para Bob.
“O fato de eu nunca ter contado essa história antes, é porque não havia ainda um distanciamento grande entre o personagem e o homem. O que quero dizer é que prometi a ele não revelar nada antes de sua morte. Sabe como é, repórteres, publicidade... Ele não gostava desse tipo de coisa. E o fato de eu ter escolhido você é muito simples, eu não poderia escrever a história sem confundi-la com os próprios quadrinhos. E mesmo que o fizesse, os próprios leitores se encarregariam de fazer a confusão. Ao passo que uma escritora pode manter as coisas em perspectiva, sem cair em um Pulp Fiction barato.”

O homem realmente sabia encher a bola de uma pessoa. Me ajeitei o mais confortavelmente possível e me preparei para escutar a maior de todas as aventuras do Batman, a verdadeira aventura... A ÚLTIMA AVENTURA DE BATMAN !

A GRANDE DEPRESSÃO

Estamos no ano de 1930. Local, a cidade de New York, também conhecida como a “Grande Maçã”. Eu estava com o meu pai no topo da maior criação da engenharia civil feita até aquele dia pelo homem; O Empire State Building. Do alto dos seus 375 m. de altura, mais de cento e trinta andares, o mundo lá embaixo nos parecia pequenino e silencioso. A única coisa que sentíamos e ouvíamos era o barulho do vento que uivava como o lamento de um lobo numa fria noite de inverno.

Olhando para baixo ninguém poderia dizer o drama que se desenrolava entre aquele intrincado labirinto de ruas , ou dentro daqueles sem número de prédios que constituíam a minha amada e amaldiçoada cidade.

Em Outubro de 1929, o mercado de títulos caiu. Em apenas um dia homens ricos se tornaram pobres, e homens pobres se viram atirados na mais completa miséria. Corretores desesperados venderam quase 16,5 milhões de dólares em ações pelo o que podiam pagar. As perdas chegaram a quase 30 milhões de dólares. As fábricas fecharam. Homens sem empregos e agricultores sem clientes perderam lares e tudo o mais que tinham. Industriais e acionistas falidos se suicidavam todos os dias. O Presidente dos Estados Unidos naquela época era Herbert Hoover, mas apesar de suas tentativas para conter o pânico, a nação mergulhou numa profunda depressão econômica.

Nossa família teve sorte. Apesar da trágica situação que o país estava atravessando, meu pai conseguiu manter o seu negócio. Ele era dono de uma lanchonete no Queens. Quanto a mim, consegui um emprego entregando jornais. Na época eu tinha treze anos. Além disso fazia serviços de mensageiro para a redação de um dos principais jornais do país, o New York Times. O seu dono era Adolph Ochs.

Quando eu estava na redação sempre escutava as pessoas falando de como ele comprou o jornal quase falido e o transformou em uma potência. Tinham uma verdadeira admiração pelo homem.

É nesse cenário que surge o nosso herói! A primeira vez em que botei os olhos em Bruce Waine foi justamente na redação do Times. Ele era uma figura impressionante; alto, trajando um terno de linho de um tom cinza claro, cabelos pretos cortados rentes, um olhar azul penetrante e um sorriso capaz de conquistar o mundo.

Diferente do que eu costumo contar nas histórias em quadrinhos, a fortuna Waine não provinha dos estados Unidos. Ao contrário, ela vinha da Inglaterra. Filho de um Almirante da indústria naval inglesa, os Waines souberam preservar suas riquezas apesar da queda da bolsa que abalou o mundo inteiro e não só os Estados Unidos.

Waine atravessou imponente a redação cumprimentando as pessoas e recebendo tapinhas nas costas até chegar a mesa de um dos repórteres, Jarves Harding.

“Olá Jarves meu velho o que conta de novo, perguntou Waine sentando-se na ponta da mesa do repórter e desarrumando seu cabelo de maneira jovial. Harding levantou os olhos da papelada que estava olhando e tirou a mão de Waine de sua cabeça. “Pelo amor de Deus Waine, por onde é que você anda. Tudo o que se fala é nessa maldita depressão, abrindo os braços ele exclamou, será que você é o único milionário do país que não está com problemas financeiros ?”

Waine cruzou os braços e olhou sério para o amigo. “Não seja injusto meu velho, também tivemos nossos reveses. Só que papai é um raposa velha, ele soube como salvar a situação.”

Ele deu uma gargalhada e saltou da mesa. “De qualquer forma, Jarves meu velho, eu não vim aqui discutir a situação econômica do país, mas sim lhe pedir um favor. Ele enfiou a mão no bolso do paletó e tirou um pedaço de papel, " Quero que coloque um anúncio no seu jornal para mim".

Harding pegou o papel da mão de Waine com um safanão, leu a primeira vez, arregalou os olhos e leu de novo com um sorriso brotando de seus lábios. “Eu não acredito nisso, não pode ser. O solteirão inveterado e boa vida, Bruce Waine, vai se casar?”

Harding se levantou e abraçou o amigo com força. “Caroline Stevenson não sabe a dor de cabeça que está arrumando.” Os dois riram juntos por algum tempo. Então Waine falou mais alguma coisa para Harding que eu não pude escutar. Os dois se despediram com um caloroso aperto de mãos.

Quando Bruce Waine passou por mim nossos olhos se encontraram e de seus lábios surgiu novamente aquele sorriso como se ele me conhecesse. Fiquei observando até ele desaparecer pelas portas. Senti uma mão em meu ombro e me virei , era Harding. “Sabe quem é ele Bob,” balancei a cabeça negativamente
" Ele é o Batman!”.

Batman, só tinha escutado esse nome em conversas de adultos nas ruas e quando brincávamos de policia e ladrão nos terrenos baldios. Jamais pensei que pudesse ser de verdade, e para falar a verdade até hoje tenho a impressão de que tudo não passou de um sonho, produto da imaginação de um garoto que vivia com a cabeça no mundo da fantasia. Só que foi real!

Bruce Waine era dotado de uma inteligência e capacidade dedutiva notáveis. Sendo ele rico e com disponibilidade de tempo, dedicou parte de sua vida aos estudos; história, geografia, botânica, química mas principalmente a zoologia. Tinha uma admiração louca por uma determinada espécie de animal, os morcegos. Sozinho tinha classificado mais de trinta espécies dessas criaturas em suas viagens pelo mundo. Daí o apelido de Batman, " O Homem Morcego. Porem esse nome não ficou notório na cidade pela sua excentricidade de zoólogo, mas sim devido ao fato de ter colocado alguns dos gangsters mais conhecidos da época atrás das grades.

Ele não andava de noite pelos telhados trajando uma roupa de morcego como você esta imaginando, isso é parte apenas das minhas histórias em quadrinhos. Não, como eu disse antes, ele era de um inteligência e capacidade de dedução notáveis. Sendo assim, não tardou ele a colocar o seu intelecto para solucionar os mais intrincados casos policiais, rivalizando como muitos gostavam de compara-lo com o seu colega de ficção, Sherlock Holmes. Isso é claro, o agraciou com muitos inimigos, mas amigos e admiradores também.

Bem, como vim a me envolver com este homem é o que eu vou lhe contar agora:

Harding pediu para que eu fizesse uma entrega na mansão de Bruce Waine que ficava fora de New York. Devido toda aquela situação que o país atravessava, as crianças eram obrigadas a se virarem como podiam. Arrumavam qualquer bico para levarem dinheiro para casa e ajudarem os pais. Por isso meu pai não se incomodava quando eu demorava muito. Ele confiava em mim, e sabia que eu estava trabalhando. Porque mesmo tendo conseguido manter a lanchonete a situação não estava boa. É preciso lembrar que nossos clientes eram constituídos de desempregados. Portanto, todo o dinheiro que entrasse ajudava.

A Mansão Waine ficava em outro distrito, para eu chegar lá era preciso pegar o trem. O lugar se chamava Gothan City.

Sim, eu sei. Não é interessante como as coisas verdadeiras têm a capacidade de se perderem com o tempo, sendo lembradas apenas como lendas ou ficção ?


O REI

Quando eu cheguei a Gothan City já passavam, das 18:00 hs. Sai da estação de trem e peguei o primeiro taxi que encontrei. A cidade não era muito grande. A Mansão Waine ficava em Bristol, bairro rico de Gothan. Puxando conversa com o motorista, fiquei sabendo que a cidade tinha vinte e quatro bairros. Tirei o relógio de bolso que meu pai tinha me dado e olhei a hora outra vez, já estava ficando muito tarde. Vinte minutos depois chegamos ao meu destino.

A Mansão era simplesmente maravilhosa. Tinha cinco andares, forrados por mais janelas do que eu tinha vontade de contar, com um imenso arco no centro com uma porta gigante de duas bandas, sendo que a casa era ladeada por duas imensas torres.

Despedi-me do motorista indo até a enorme porta. Argolas gigantes de maçanetas, e ao lado da porta havia uma corda presa a um série de sinos. Eu puxei e o barulho dos sinos foi ensurdecedor.

Pouco depois a enorme porta se abriu e uma senhora de cabelos brancos com um enorme sorriso no rosto e trajando um vestido azul me atendeu. Tirei o boné da cabeça e estendi o embrulho para ela. “Eu trouxe uma encomenda do Sr. Harding para o Sr. Waine.”

A senhora me puxou gentilmente pelo braço para dentro da casa. “ Ah meu querido, espere só um momento que o Sr. Waine já vem falar com você.”

A bondosa senhora sumiu por uma porta me deixando sozinho em um enorme salão. Eu estava simplesmente extasiado. Aquela mansão parecia um castelo medieval. Duas enormes escadarias davam para o andar de cima. Enormes janelas com vitrais trabalhados com figuras de cavaleiros em armaduras ladeavam as enormes portas. O lustre era tão grande e luminoso que parecia uma enorme bola de fogo pendendo do teto. Embaixo dos meus pés um espesso tapete branco. Era tudo maravilhoso!

De repente de uma das escadarias veio descendo a imagem de um anjo. Eu estava me sentindo como um príncipe, e aquela era a minha princesa ! Ela a moça linda que eu já tinha visto! Tinha os cabelos ruivos compridos e escorridos, emoldurando um rosto pequeno e bonito, com olhos castanhos tão escuros que pareciam a noite, o nariz era pequeno, mas não arrebitado, um pouco aquilino, dando um ar de inteligência e esperteza em conjunto com os olhos. Os seus lábios grandes e vermelhos denotavam uma ingenuidade quase maliciosa. É claro que toda essa análise só pude fazer anos depois quando já era um homem feito. Naquele momento ela era simplesmente um anjo !

Ela descia as escadas com seus braços alvos expostos, trajando um belo vestido branco rodeando o seu belo corpo.

Se aproximando de mim a moça passou a pequena e quente mão no meu rosto. Eu estava no céu !

“Ora, ora, meu jovem, vejo que já conheceu Caroline.” Tamanho foi o meu susto quando eu vi Bruce Waine que deixei o embrulho cair no chão. Ouvi o som de vidro se quebrando, quando olhei para baixo vi o tapete todo empapado por um líquido borbulhante.

“Senhor, me desculpe, eu não queria, quero dizer ..., envergonhado eu me abaixei e comecei a catar os pedaços das garrafas de champanhe. Quando uma mão pequena pousou em minha cabeça. “Não se preocupe querido, a culpa foi minha.”

Olhei para o rosto da moça quase chorando, quando uma mão maior e mais forte segurou em meu braço e me levantou gentilmente.

Bruce Waine pegou um pedaço da garrafa onde tinha parte de um rótulo. Depois de ler fitou-me com aquele olhar penetrante, aos poucos foi brotando em seus lábios um caloroso sorriso: “E o Harding tem coragem de me mandar esse desentupidor de pia, não imagino melhor destino do que acabou de sofrer.” Ele começou a gargalhar, contagiados eu e Caroline começamos a rir também até sair lágrimas de nossos olhos.

Bruce Waine estendeu a mão e apertou a minha com força. Naquele momento senti que poderia confiar àquele homem a minha própria vida.

“Esta é minha noiva e futura esposa, Caroline.” Ele a aninhou junto ao seu corpo como se fosse o bem mais precioso do mundo. “E você meu jovem, como se chama ?”

“Bob senhor, Bob Kane.” Respondi em voz baixa para o gigantesco homem a minha frente. “Pois bem, Bob Kane, já é tarde demais para você ir embora. Esta noite você fica na Mansão Waine. Imediatamente eu protestei. “Mas eu não posso ficar senhor, os meus pais vão ficar preocupados.”

Ele simplesmente colocou a mão em meu ombro e me conduziu para outra sala juntamente com sua noiva. “Nós podemos resolver esse pequeno problema.” Na sala estava sentado em um enorme sofá um homem de certa idade , calvo, com um bigodinho e olhar cansado.

“Alfred, este jovem será nosso convidado por essa noite.”O homem deu um pequeno sorriso e acenou a cabeça para mim. “Bob, qual o telefone de sua casa ?” Eu olhei para Bruce Waine e disse que o nosso telefone havia sido cortado porque não tínhamos dinheiro para pagar a conta. “Nesse caso, disse Waine, pedimos para o Harding avisar aos seus pais, afinal de contas você veio aqui a serviço dele. Você liga para ele Alfred.”

“Certamente senhor”. Respondeu o homem imediatamente pegando o telefone que estava na mesinha ao seu lado.

Caroline se aproximou de mim sorrindo. “Venha comigo, vou levar você até um dos quartos de hóspedes onde poderá se lavar e vestir uma outra roupa.” Eu não podia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo, e ainda nem eram oito horas da noite !

Tomei banho de banheira, coisa que eu nunca tinha feito na vida, era delicioso! Depois do banho entrei no quarto enrolado em uma toalha, em cima da cama tinha um terno aparentemente do meu tamanho. Me vesti e fui me juntar a Bruce Waine e seus amigos.

A primeira coisa que Waine disse ao me ver é que tinha certeza que um dos antigos ternos de quando ele era criança serviria em mim.

“Deverás, senhor.” Respondeu Alfred, com um sorriso econômico e olhar cansado. Alfred não era o mordomo de Bruce Waine como você está imaginando. Ele era advogado e procurador da família. Na Verdade Tomas Waine incumbiu Alfred, que era um antigo amigo, de tomar conta de seu filho Bruce, evitando que ele desperdiçasse sua fortuna antes de atingir a idade adulta. Porém os laços que os uniam se estreitaram, de forma que Alfred se tornou amigo e confidente de seu protegido tornando-se seu leal escudeiro em suas aventuras.

Caroline abraçou Bruce por trás e disse em seu ouvido. “E então querido, vamos aceitar o convite de meu pai ?” Waine segurou as mãos de sua noiva e olhou para mim. “E porque não ? Temos que proporcionar uma boa estadia para o nosso convidado, não é mesmo Bob ? E eu também estou muito curioso em conhecer este Coringa.”

Coringa, outro nome que eu jamais esquecerei pelo resto de minha vida. Ele era um mágico e adivinho que tinha vindo para Gothan a uns seis meses. Tinha previsto a queda da bolsa de valores salvando algumas das maiores fortunas da cidade. Entre elas a de Roy Stevenson, dono da maior madeireira da Costa Leste e pai de Caroline. Depois disso ele passou a ser conselheiro desses ilustres de Gothan, tanto no campo financeiro, como em todos os aspectos de suas vidas.

Porém, para Bruce Waine existia alguma coisa muito estranha acontecendo. E o olhar obstinado dele dizia que nada iria impedi-lo de descobrir o que era.


O CORINGA

Eu não conseguia parar de abrir a boca a todo momento sem emitir um único som. A noite de Gothan City era maravilhosa!

Nós estávamos no Centro Financeiro. Ali estavam os principais edifícios da cidade; os bancos, a bolsa de valores, as joalheiras, hotéis, restaurantes e teatros. E era para lá que estávamos indo, a Brodway Gotamita!

Nós fomos para o maior teatro da cidade, o Adam Howe Pavilion, batizado dessa maneira em homenagem ao primeiro Governador Geral de Gothan. Lá estava acontecendo o show de maior sucesso na cidade dos últimos meses. Era o “THE MAGIC WORLD OF JOKER”.

Saímos do carro enquanto Bruce dava instruções para o motorista e Alfred retirava os convites na bilheteira. Alfred nos chamou. “O show já começou.” Entramos rápido e nos dirigimos para o camarote do pai de Caroline. Roy Stevenson era um homem alto e corpulento, com os cabelos totalmente brancos e a barba bem aparada. Ele se levantou e abraçou fortemente a filha, apertando em seguida a mão de Bruce e acenando com a cabeça para mim e Alfred com um grande sorriso no rosto. “Pensei que vocês não viessem mais.”

O teatro era enorme. Tinha lugares para duas mil pessoas, contando com os três andares de camarotes que iam do inicio ao fim das paredes da nave do teatro. A abóbada da nave era toda ornamentada e com pinturas contando a colonização da cidade. Além disso ela podia ser aberta em noites estreladas. Ouviu-se os três toques característicos da campainha anunciando que o espetáculo iria começar. Aos poucos todos foram tomando seus lugares e ficando quietos. A iluminação foi diminuindo gradativamente até tudo ficar na mais completa escuridão.

A medida que o tempo passava e nada acontecia começou a deixar as pessoas inquietas em seus lugares.

De repente uma explosão de luzes coloridas se fez no palco seguida do som de trombetas. Do meio das luzes surgiu a figura de um homem em traje de gala, cabelos castanhos muito claros e a face totalmente branca, com um grande sorriso vermelho se destacando nela.

O som das trombetas foi aumentando juntamente com as luzes até uma altura ensurdecedora. De repente tudo cessou, e só ficou o homem no palco. As pessoas começaram a aplaudir efusivamente ao que o homem respondeu apenas com um leve aceno de mão, como se fosse sempre natural essa reação das pessoas a sua presença. Aos poucos as pessoas foram silenciando novamente.

Nós estávamos em um dos melhores camarotes do teatro. Ele ficava no primeiro andar, junto ao palco. Dessa maneira tínhamos uma visão privilegiada de tudo o que acontecia.

A minha primeira reação depois de passar o meu espanto foi olhar para Bruce. Ele estava em pé junto as cortinas, de modo que ficou encoberto pelas sombras. Um pequeno facho de luz iluminava apenas a parte de baixo de seu rosto, mostrando o seu queixo forte e os lábios finos apertados como um corte de navalha. Sua silhueta escura se destacando na porta iluminada estava atemorizante! Pela primeira vez eu vi Batman!

Toda vez que eu desenhava o meu personagem eu evocava essa poderosa imagem em minha cabeça. Waine estava alerta, ele parecia sentir que algo estava para acontecer. O Coringa se aproximou do palco e ficou olhando para a platéia com o seu sorriso horrível estampado no rosto. Que figura impressionante ele era! E de uma maneira estranha, muito semelhante ao Batman. E então eu percebi o porque. Eram aqueles olhos, tão duros e obstinados quanto os de Waine.

“Cavalheiros e Damas, uma vez mais vocês me brindam com a sua presença. Não imaginam o meu prazer em ver essa casa sempre lotada...” Antes que o Coringa pudesse concluir as pessoas começaram a aplaudir novamente. “Por favor, por favor, vocês são tão carinhosos!”

Alfred se inclinou para trás e falou em voz baixa para Bruce com sua ironia característica.; “E o espetáculo ainda nem começou.”

“Eu não diria isso meu caro, eu não diria isso.” retrucou Waine com um olhar compenetrado.

“Eu lamento lhes informar que esse será o meu último show em sua bela cidade. Devido a problemas pessoais, sou forçado a ir embora ainda hoje.” Formou-se um burburinho, as pessoas começaram a protestar e lamentar. “Não fiquem assim meus queridos, porque esta última apresentação será memorável... eu lhes prometo!

“Senti uma nota de desprezo naquela promessa, e não fui o único! Bruce se aproximou do balcão , expondo sua figura imponente à luz. Os olhos dele e do Coringa se cruzaram, fixando-se um no outro por alguns instantes. Juras secretas de ódio eterno foram trocadas naquele momento!

O show do Coringa era realmente o máximo. Era preciso tirar o chapéu para o homem, ele fazia de tudo! Truques de levitação, atirava facas, truques com baralhos, e até o manjado coelho dentro da cartola! Mas o ponto máximo do espetáculo, e o que todos aguardavam ansiosamente era o show de adivinhações.

O Coringa começou a andar pelo palco enquanto falava. “Bem meus queridos convidados, para este número vou precisar de alguém da platéia. Quem teria a coragem de revelar os seus mais profundos segredos para nós?” Lentamente ele virou o rosto em direção do nosso camarote e ficou olhando para Bruce. Por um instante eu pensei que ele fosse chama-lo, porém... Eu chamo o rei da Madeira, Roy Stevenson.” O Coringa estendeu os braços para o nosso camarote enquanto todos aplaudiam.

Stevenson se levantou agradecendo e acenando para o Coringa. “Ah, Ah, esse Jack não tem jeito mesmo!” Caroline se levantou e ficou ao lado de Waine. “Bruce, eu não estou gostando disso, aquele homem me assusta.” Ele sorriu para noiva e deu um beijo em sua testa. Em seguida fez um sinal para Alfred com a cabeça, que se levantou e foi atrás de Stevenson.

Hoje, olhando para trás, a impressão que eu tenho é de que estava vivendo um daqueles romances de aventura que eu tanto gostava de ler! No palco Roy Stevenson apertou a mão e abraçou o Coringa, como se este fosse um ente querido da família.

Bruce Waine agora estava sentado com o olhar fixo no Coringa. Eu podia sentir a sua tensão. Ao seu lado Caroline também tinha a expressão compenetrada, como se esperasse ou soubesse de que alguma coisa iria acontecer. Quanto a mim, acompanhava os acontecimentos como um espectador que era, sem nada poder fazer, mas ainda assim deslumbrado com tudo aquilo!

 

A DAMA

Stevenson estava sentado em uma cadeira no palco de frente para a platéia, enquanto o Coringa estava de pé, uns cinco passos atrás dele. “Muito bem, Roy meu querido, eu quero que você se concentre em coisas agradáveis, limpe sua mente, deixe-a livre para mim.”

O silêncio no teatro era quase religioso. Sendo pouco original, dava para se ouvir o barulho de um fio de cabelo caindo no chão. E Waine continuava imóvel como uma antiga estátua grega.

O Coringa andou até a borda do palco, bem a frente de Roy Stevenson. “Damas e Cavalheiros, atrás de mim está um dos mais conceituados cidadãos de Gothan City. Dessa maneira quero crer, que, da mais absoluta confiança de vocês. O que lhes dá a garantia de que este número não é uma farsa.”

“Muito esperto Coringa, muito esperto.” Ouvi Waine sussurrar.
O Coringa começou com coisas simples. Ele pedia para que Roy pegasse algum objeto pessoal, enquanto ele adivinhava o que era. Em seguida começou a fazer perguntas específicas a respeito dos negócios e da vida dele. Para em seguida falar coisas que somente Roy Stevenson e sua filha poderiam saber. Caroline estava inquieta, olhava de Bruce para o palco constantemente. “É impossível, como ele pode saber a respeito dessas coisas?”

Waine segurou em suas mãos.; “Talvez seu pai tenha contado ao Coringa.”
Caroline olhou abismada para o noivo. “O que está sugerindo Bruce, que o meu pai esta participando de uma farsa com um vigarista qualquer?”

“Não, eu estou dizendo que talvez o seu pai tenha sido levado a contar essas coisas ao Coringa, contra a sua vontade.”

Enquanto isso a platéia aplaudia de pé o Coringa, que recebia os comprimentos com beijos e obrigados, rodopiando com os braços abertos. O homem gostava de ser o centro das atenções. Roy se aproximou do Coringa e os dois se abraçaram. Roy Stevenson então pediu silêncio para a platéia. Com o braço esquerdo em volta dos ombros do Coringa começou a falar: “Meus amigos, todos vocês sabem o que esse extraordinário homem fez por mim e por alguns outros renomados cidadãos de Gothan. Num momento em que a economia nacional e mundial estava ameaçada, ele com os seus dons fantásticos conseguiu predizer o que estava para acontecer e conseguiu nos convencer a tomar medidas antes da tragédia.”

Todos os presentes aplaudiram efusivamente. “Por favor, Senhoras e Senhores. Em reconhecimento e agradecimento a Jack Napier, mais conhecido como o Coringa, eu e os outros cidadãos já citados, vamos passar ações de nossas Companhias para ele, tornando-o dessa maneira nosso sócio.”

As reações de todos ali , foram, as mais adversas que se pode imaginar. De estupefação, até a incompreensão! Caroline se levantou de sobressalto, dando a impressão de que ia cair do camarote. Sua pele naturalmente branca, naquele momento se assemelhava a uma vela. Bruce segurou-a pelo ombros sussurrando-lhe palavra de conforto no ouvido. Enquanto isso o Coringa agradecia a Roy Stevenson com um misto de cinismo e ironia no sorriso estampado em seu rosto.

“Oh Roy, eu nem sei o que dizer, estou tão emocionado! Vocês todos são tão bondosos comigo!” Dizendo isso o Coringa se aproximou da platéia com as mão cruzadas diante do peito e os olhos cheios de lágrimas, sua bocarra com os cantos virados para baixo, formando um U de ponta cabeça. “Vou sentir tanto a falta de vocês quando eu partir...” Derepente ele soltou uma gargalhada alucinante.

“Mas como dizem no Show-bis, o espetáculo deve continuar!” Rindo loucamente o Coringa jogou alguma coisa no chão que causou uma enorme nuvem de fumaça, enquanto a música e as luzes explodiram novamente. Quando tudo terminou , nem o Coringa, nem Roy Stevenson estavam mais no palco. Ao público não restou nada mais a fazer além de aplaudir.

Entretanto, no nosso camarote Caroline estava desesperada. “Onde está o meu pai Bruce, para onde aquele homem o levou?” Waine em vão tentava acalmar sua noiva, quando Alfred entrou.; “Sr. Waine, nenhum sinal do Sr. Stevenson ou do Coringa. Verifiquei todos os camarotes e saídas, eles não estão mais no teatro.”

Essa informação só serviu para deixar Caroline mais nervosa. Eu queria poder fazer alguma coisa, mas era apenas um garoto. Então um mensageiro do teatro entrou no camarote com uma mensagem.” Srta. Caroline, seu pai pediu que lhe entregasse esse bilhete.” Caroline pegou o bilhete, enquanto Bruce tirava uma moeda do colete e dava de gorjeta ao mensageiro, que agradeceu e saiu. Ela entregou o bilhete para Waine, fechando os olhos e abraçando o próprio corpo.

Waine leu o bilhete e olhou para Caroline. “Essa é a letra de seu pai?” Ela balançou afirmativamente a cabeça.

“Mas não faz sentido Bruce, meu pai jamais viajaria dessa maneira, sem falar comigo antes. E isso de doar ações para aquele homem... Oh, Bruce, eu sinto que papai está em perigo.”

Bruce Waine pegou o casaco de sua noiva e conduziu-a para fora do camarote, seguidos de perto por mim e Alfred. Fora do teatro o Batman assumiu o lugar do milionário. “Pois bem, é isso o que vamos fazer: Alfred, eu quero que você descubra tudo o que puder sobre esse Coringa, comece pela direção do teatro. Enquanto isso eu vou até a Chefatura de policia conversar com o Comissário Gordon.” Waine parecia um general comandando as suas tropas.
Então Caroline segurou no braço de seu noivo. “E eu, o que faço ?”

Com um sorriso maroto no rosto Waine apontou para mim. “Você leva o pequeno Bob para casa e toma conta dele. Assim que tivermos alguma noticia entramos em contato.”

Caroline tentou protestar, mas antes que pudesse dizer alguma coisa Waine já estava dando instruções para o chofer e nos colocando dentro do carro. “Não se preocupe querida, vai dar tudo certo.” Bruce Waine beijou ardentemente os lábios de sua noiva para em seguida sumir no meio da noite com o seu fiel companheiro Alfred. Pequeno Bob, eu estava indignado, afinal de contas eu já tinha treze anos, apesar de que realmente eu era pequeno para a minha idade. Na verdade, Waine me usou como desculpa para deixar sua noiva a salvo. Porém estava bem longe dos planos de Caroline deixar toda a diversão para ele! Tendo acompanhado vários dos casos de Batman, era de se esperar que a moça tivesse aprendido algo a respeito dos métodos de investigação do grande criminalista, e tomado gosto pela aventura.

“James, me deixe em minha casa e depois leve Bob para a Mansão Waine. Peça para que Ema bote o garoto na cama.” Agora era minha vez de tentar protestar. “Mas o Sr. Waine disse...”

“O Sr. Waine não manda em mim.” Uau, eu acho que estava vendo os prelúdios do movimento feminista ali na minha frente! Aquela era uma mulher especial! Depois de muitos anos após aqueles acontecimentos, de muitas maneiras, tentei achar uma mulher que ao menos se parecesse com ela. Nunca consegui, Caroline era única. E Bruce Waine sabia disso! Caroline Stevenson foi o meu primeiro amor, e o último dele!

A DAMA E O CORINGA

Caroline ficou em sua casa, enquanto eu seguia para a Mansão Waine. Só que eu sabia que ela ia tentar fazer alguma coisa perigosa. E já que o Batman não estava por perto, cabia a mim protege-la, pelo menos era assim que funcionava a minha lógica de garoto apaixonado. No primeiro sinal que paramos, eu saltei do carro e fugi.

A casa de Caroline ficava em Chelsea, outro bairro ricaço de Gothan City. Eu estava em Conventry, não levaria mais de vinte minutos para ir até a casa dela. O problema é que já passava da meia noite, e eu não achava que era muito saudável um menino da minha idade andando pelas ruas àquelas horas. Pelo menos no Brooklin não era. Cheguei a tempo de ver Caroline saindo com o Ford de seu pai. Consegui alcançar o carro e me esconder atrás dele segurando no estepe. estávamos indo para Oeste. Passamos por diversos bairros, Bryanton uma área muito pobre da cidade; Uptown , onde o que mais se via eram hotéis de pequeno e médio porte; Litle Stockon, onde começava a se desenvolver um grande pátio industrial. E finalmente o nosso destino, Lyntown.

Lyntown era um lugar praticamente esquecido dentro de Gothan, com várias fábricas e armazéns abandonados. Aquela área era usada pelos bandidos para operações clandestinas do comércio ilegal de bebidas. Eu não conseguia imaginar o que Caroline estava fazendo em um lugar como aquele.

Ela apagou os faróis do carro e seguiu por uma rua em direção de um velho armazém. Ela contornou o prédio vagarosamente e estacionou o carro perto da entrada dos fundos.

Ela desceu do carro com uma lanterna na mão. Estava usando uma calça de sarja caqui e uma jaqueta de couro marrom escuro. Os seus cabelos estavam presos com uma boina preta em sua cabeça, e em vez de seus elegantes sapatos de saltos altos, usava um par de botas pretas.

Eu me aproximei por trás dela e toquei em seu ombro. Ela levou um susto tão grande que deixou a lanterna cair no chão. “Bob, como foi que você chegou aqui?” ela se abaixou e pegou a lanterna. “Você devia estar na Mansão a esta hora e debaixo das cobertas.”

Olhei para ela e disse: “Você também!”

Caroline colocou as mãos em meus ombros. “ Bob, eu sei o que estou fazendo, agora escute bem: Eu vou ter que entrar ai dentro, enquanto isso você vai ficar quietinho ai dentro do carro.”

Mas é claro que eu não ia deixar as coisas daquele jeito. “O Sr. Waine sabe que você está aqui?” Pela primeira vez Caroline olhou para mim como se eu não fosse apenas uma criança.

“Eu tentei, mas ele já tinha saído da Chefatura com o Comissário Gordon.”

Segurei na manga da jaqueta dela e disse: “E se o homem de cara branca estiver ai dentro, e se ele pegar você?” Caroline passou as mãos em meus cabelos realmente emocionada com a minha preocupação. Ela beijou o meu rosto e me deu um abraço. A esta altura eu já estava nas estrelas !

“Não se preocupe querido, eu entro e saio num instante.” ela me deixou no carro e entrou sorrateiramente no armazém.

Mas eu tinha prometido para mim mesmo que iria protege-la. Deixei passar um minuto e segui atrás dela. O armazém estava na maior escuridão, não dava para discernir as formas direito, o meu único ponto de referência era o ponto luminoso a minha frente que era a lanterna de Caroline.

Ela subiu um lance de escadas e desapareceu. Fui pelo mesmo caminho, ali tinha uma porta. Entrei num comprido corredor, no final havia uma luminosidade. A medida que me aproximava da luz ouvia o som de vozes.

“ Roy meu querido, você foi simplesmente o máximo.” O Coringa segurou o rosto de Roy Stevenson e cuspiu em seu rosto. “Eu abomino gente como você, depois que passar todas as ações suas e de seus associados para mim, terei um enorme prazer em matá-lo.”

O Coringa empurrou Stevenson, que bateu com a cabeça na parede. Stevenson estava amarrado em uma cadeira, a sua frente estava uma escrivaninha com alguns papéis e uma caneta tinteiro em cima.

O Coringa tinha tirado o fraque e agora vestia um terno de twidi verde, contrastando com a horrível maquiagem branca em seu rosto.

Eu estava acima deles, escondido atrás de um barril perto da porta pela qual tinha entrado, mais a esquerda tinha uma escada que descia ao local onde eles se encontravam. Comecei a virar a cabeça de um lado para o outro a fim de ver onde Caroline estava. Eu a avistei do meu lado direito atrás de uns caixotes do outro lado da porta. Ela fez sinal dom o dedo para que eu ficasse em silêncio.

“Vamos lá Roy, estávamos indo tão bem, porque você começou a resistir as minhas sugestões hipnóticas?” O Coringa sentou-se no canto da mesa de frente para Stevenson com o braços cruzados.

“Não vou trair o meu país, você ouviu seu salafrário, eu não vou trair o meu país!” Gritando isso, Roy conseguiu se atirar com a cadeira em cima do Coringa, que facilmente conseguiu se esquivar o desequilibrando e jogando-o no chão.

“Patético Roy, patético.” O Coringa foi andando até um canto da sala, que eu não conseguia ver, devido a posição onde estava. “Sabe Roy, a sua grande nação logo não será nada, assim como você não é agora.” Ele voltou lentamente para onde Stevenson estava, brincando com um punhal nas mãos.

Caroline assustada colocou a mão na boca para reprimir um grito. Porém esse movimento fez com que seu cotovelo batesse em uma caixa, o que não passou despercebido do Coringa.

“Roy, meu querido vamos falar sério...” De repente o Coringa pulou em cima de Stevenson e colocou o punhal em sua garganta. “Muito bem, seja lá quem for, saia de onde estiver ou eu rasgo a garganta do velho.”

Caroline saiu de detrás das caixas gritando: “Por favor, não machuque o meu pai.”

O Coringa começou a gargalhar. “Parece Roy, que temos algo para negociar no final das contas, desça aqui mocinha, e sem gracinhas, porque senão já sabe.”

Eu estava apavorado, o que poderia fazer. Caroline passou por mim e bateu em meu ombro de maneira que o Coringa não percebesse, dizendo que era para eu ir embora. Mas eu não poderia sair dali deixando ela e o pai naquela situação. Percebi que a única maneira de eles sobreviverem era eu trazer ajuda. Mas antes eu tinha de descobrir mais sobre os planos do Coringa.

O Coringa amarrou Caroline junto ao seu pai. Nesse meio tempo eu me escondi em outro lugar onde ele não pudesse me encontrar.

O Coringa subiu as escadas e olhou ao redor, em seguida foi até uma enorme janela no alto da escada, ficando olhando por um longo tempo.

Se dando por satisfeito, voltou até os prisioneiros. “Muito bem minha querida, vá falando; Como me encontrou, avisou mais alguém que estava vindo para cá, como por exemplo o seu namorado, Bruce Waine?” Caroline virou o rosto sem emitir nenhuma palavra. O Coringa, então, colocou novamente o punhal na garganta de Stevenson.

“Não, por favor, não machuque o meu pai, eu falo.”

Lágrimas saiam dos olhos de Stevenson, ele não conseguia mais falar.

“Eu procurei nos papéis de papai algo de diferente, que pudesse dar uma pista de onde ele estava. Quando encontrei os contratos de compra de várias propriedades, me chamou a atenção o fato dele ter adquirido armazéns em Lyntown. Ele sempre disse que aqui seria o último lugar em que empregaria o seu dinheiro, o resto você já sabe.”

O Coringa começou a aplaudir. “Excelente, vejo que aprendeu alguma coisa no final das contas, com o seu namorado.” Ele se aproximou de Caroline e puxou sua cabeça para trás, derrubando a boina e soltando os seus cabelos. “

A propósito querida, ele sabe que você veio para cá ?”

Caroline disse que não, mas o Coringa não se deu por satisfeito. O que aconteceu depois me causa pesadelos até hoje. O Coringa espancou Caroline tentando extrair-lhe uma resposta que o agradasse até que ela perdesse os sentidos. Roy Stevenson vendo aquilo sem nada poder fazer, entrou em estado de choque.

Em seguida o Coringa os arrastou para um caminhão na entrada do armazém. Dando uma olhada em volta, entrou no caminhão e deu a partida. Antes de sair virou o rosto e deu um último olhar na direção de onde eu estava escondido. Por um instante pensei que tinha sido descoberto, seus olhos pareciam duas adagas de gelo! Mas, então ele saiu sem mais olhar para trás. Me esgueirei para fora do meu esconderijo em baixo da escada, e cai de joelhos no chão chorando. O que mais eu poderia fazer ? Então me lembrei do lindo rosto de Caroline e do que aquele bruto tinha feito.

O ódio subiu pelo meu corpo, fui até a mesa e comecei a procurar qualquer coisa indicasse para onde o maldito os tinha levado. Foi quando achei um pedaço de papel com vários números escritos e um nome “Nuremberg”. Podia não significar nada, mas também poderia ser a salvação de Caroline e seu pai.

Sai correndo desesperado noite a dentro, em busca do único homem que seria capaz de ajudar. Foi naquele momento, que pela primeira vez imaginei como seria útil ter o sinal do morcego brilhando no céu.

O VALETE

Gothan City não era muito grande, mas para mim que não a conhecia era gigantesca e assustadora. A cada rua que eu passava, me sentia mais e mais perdido. Tinha sido abordado duas vezes por mendigos e bêbados. Época terrível aquela a de 1930, parecia que todo o mundo tinha acabado na miséria. De qualquer maneira eu ainda tinha de encontrar o “Batman”. A questão era: Eu conseguiria fazer isso a tempo ?

Tentei achar um guarda, mas por incrível que pareça, aquele velho ditado era verdadeiro; “A gente nunca encontra um policial quando se precisa de um.” Já passava das duas horas da madrugada, o comércio estava todo fechado. E como você bem se lembra, com a “lei seca” vigorando, não existiam bares noturnos, a não ser os clandestinos, é claro! Mas mesmo que eu soubesse onde um deles ficava, não seria louco de ir até lá, a não ser que estivesse a fim de cometer suicídio.

Eu estava em Bryanttown, um bairro decadente, onde os guetos se expandiam a perder de vista. De repente senti que estava sendo seguido, olhei para trás mas não vi nada. Continuei andando, o nevoeiro da madrugada agora tomava as ruas.

Súbito, senti uma vontade enorme de estar em minha casa junto de meus pais! Ouvi o barulho de uma lata rolando atrás de mim. Não precisei mais olhar para trás para saber que estavam me perseguindo. Corri como se o próprio capeta estivesse em meu encalço!

Quando eu pensei que tinha escapado, senti uma mão forte puxar a gola do meu paletó, me atirando na sarjeta. Levantei a cabeça, meio tonto e vi um homenzarrão com a cara toda encarapinhada se debruçar sobre mim.

“Olha só o ratinho que eu peguei!” Desesperado eu me debati nos braços do gigante, que agora me suspendiam até a altura de sua horrível cara, sem conseguir me libertar.

“Não se preocupe ratinho, o Joshua aqui, vai cuidar muito bem de você.” Dizendo isso, o monstro alisou o meu rosto com a sua enorme pata.

Deus, eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo, dei um grito tão alto que a minha garganta doeu. O monstro riu! Então ele foi atirado para frente, me soltando e caindo pesadamente no chão. Ele se levantou falando um monte de palavrões. Diante dele, parada como se nem tomasse conhecimento do seu tamanho estava uma bela mulher de cabelos negros caindo pelas costas, olhos verdes faiscantes e uma boca vermelha e sensual. Ela trajava uma jaqueta de couro preta, com uma calça justa, também do mesmo material. Em suas mãos enluvadas ela segurava um longo bastão de madeira, e pendendo preso em seu cinto na parte de trás, um chicote enrolado, parecendo com uma cauda!

O gigante partiu para cima dela, gritando:

“Vou te matar vagabunda!”

Com uma destreza que eu jamais tinha visto, a mulher se esquivou e trançou o bastão entre as pernas do monstro, fazendo-o estatelar no chão. Ela parecia um gato se movimentando, uma verdadeira “mulher-gato”.

Tomando nova posição ela aguardou o homem se levantar. Antes que ele conseguisse ela o atingiu no queixo com outro golpe do bastão. Dessa vez o monstro não se levantou mais! Ela se virou sem dar mais importância para ele, me ajudando a levantar.

“O que um garotinho como você está fazendo andando por aí, sozinho de madrugada?”

Eu estava apavorado e não conseguia conter minhas lágrimas. Só consegui balbuciar uma coisa:

“Bat... Batman...” A “Mulher-Gato” ficou olhando para mim durante algum tempo com os seus penetrantes olhos verdes. Depois me abraçou e sumimos no nevoeiro.

O ÁS DE ESPADAS

Quando chegamos na Mansão Waine, já passava das três horas da manhã. A mulher me escoltou até a porta.

“É só até aqui que eu vou pequenino.” Ela se debruçou e beijou a minha testa.

"Por que você não entra, perguntei, fica mais um pouco!”

Ela deu um sorriso triste para mim e olhou para a mansão.

“Ele não ia gostar.”

Ela se virou para ir embora quando eu gritei:

“Ei, espera, qual é o seu nome?”

“Selina.”

Dizendo isso a “Mulher-Gato” sumiu, como se nunca tivesse existido! Sem olhar para trás uma segunda vez corri até as enormes portas da mansão e comecei a bater freneticamente, esquecendo que existia uma campainha. Ema abriu a porta e deu um grito, misto de espanto e alegria. “Senhor Waine, Senhor Waine, o menino está aqui!”

Bruce Waine escancarou a porta e me puxou para dentro, em seguida ele me carregou para dentro. “ Garoto, você está bem, graças a Deus .”

Não me lembro em toda a minha vida de ter sido tão abraçado, afagado e beijado em um só dia, nem pelos meus pais. Eu gostava disso ! Bruce e eu fomos para o salão principal, lá estavam Alfred e um outro homem, alto, forte de cabelos e bigodes vermelhos, já apresentando alguns fios brancos, aquele era o Comissário Gordon.

Bruce me colocou sentado no sofá e perguntou. “O que aconteceu Bob, e onde está Caroline? “. Eu entreguei o papel que encontrei no esconderijo do Coringa para Bruce. “O homem de cara branca pegou ela Sr. Bruce.” Waine se levantou lentamente, com o olhar perdido andou até a janela e ficou olhando para fora, se virou e disse. “Era o que você queria Gordon, ai está o seu caso de seqüestro, apontou para mim, o garoto é testemunha.”

Gordon pegou o casaco e o chapéu. “Vou expedir um mandato agora mesmo. Se aproximou de Waine e segurou em seu braço. “Não se preocupe, nós vamos encontra-los.” Dizendo isso ele saiu.

Waine abriu a mão e ficou olhando o papel amassado, em seguida foi até onde eu estava.

“Bob, me conte tudo o que aconteceu, procure não esquecer nenhum detalhe.” Foi exatamente o que eu fiz, não esqueci nenhum detalhe, nem de Selina. Quando mencionei esse nome Waine ficou mais alterado do que estava.
Em seguida foi até a porta e chamou a governanta. “Ema providencie para que o garoto coma alguma coisa e durma um pouco.” Ema já estava me conduzindo para fora da sala quando eu me virei para Bruce Waine e disse: “Sr. Waine, se o senhor for atrás do homem de cara branca, eu também quero ir, eu gosto muito da Srta. Caroline.”

Waine ficou olhando para mim, por um instante pensei que ele iria chorar, mas não, afinal de contas ele era o Batman. “Nós todos gostamos Bob.” Disse ele com um sorriso no rosto. Naquele restinho de noite, foi quando comecei a delinear os contornos dos personagens que você conhece hoje. Tive sonhos estranhos com homens morcego lutando com palhaços de cabelos verdes e cara branca, onde mulheres gato assistiam a tudo com chicotes enrolados no corpo. Quando acordei já era de manhã, estava deitado em uma imensa cama, em um enorme quarto com gigantescas janelas a minha frente. De certa maneira eu continuava sonhando !

Ema entrou no quarto trazendo uma bandeja. “Bom dia meu querido, vejo que você já acordou, eu trouxe o café da manhã.” Ela colocou a bandeja na cama. Eu nunca tinha visto um café da manhã daquele jeito; leite, laranjada, frutas, geleia, torradas e queijo. Quando terminei o café tomei um banho e vesti as minhas roupas. Não as que Waine tinha me dado, mas as minhas mesmo.
Quando entrei na sala, só Alfred estava lá.

“ Onde está o Sr. Waine, perguntei. “Ele teve que sair, repondeu.

Alfred se levantando da poltrona, colocando o jornal que estava lendo na mesinha ao lado. “O Sr. Waine pediu que lhe acompanhasse até a estação de trem, o Sr. Harding vai estar aguardando-o em Nova York.”

Eu corri até Alfred. “Mas eu tenho que ajudar o Batman a achar Caroline!” Alfred colocou as mãos em meus ombros paternalmente. “Jovem, o Sr. Waine só poderás achar a noiva e o pai se não tiver que se preocupar com você. A sua segurança é muito importante para ele.”

Até uma criança como eu era capaz de entender. Por isso deixei que Alfred me levasse até a estação de trem. O que não quer dizer que eu fosse embarcar, o que realmente eu não fiz!

Alfred queria ter certeza que eu iria ficar bem acomodado, por isso me acompanhou até dentro do vagão. “Meu jovem, não se preocupe, assim que tudo estiver resolvido nós mandamos lhe avisar.” Apertei a mão de Alfred e agradei. Assim que ele virou as costas eu desci do trem!

É incrível como funciona a nossa mente quando somos crianças. A primeira coisa que eu fiz foi arranjar uma forquilha de madeira para fazer uma atiradeira. Esse brinquedo era muito popular na minha época, bem mais do que hoje.

Depois fiquei de vigília em cima de uma árvore perto da mansão Waine esperando que o Batman aparecesse. Já era noite e nada dele. De repente um sanduíche caiu no meu colo. Meu susto foi tamanho que eu quase cai da árvore, quando um braço poderoso me segurou.

Bruce, Batman desceu até o galho onde eu estava. Ele estava trajando jaqueta, calças, luvas e botas pretas. “Sr. Waine, eu..” Não consegui terminar a frase. Ele tirou o meu boné e desarrumou o meu cabelo dando risada. Quando olhei de novo ele já estava no chão fazendo sinal com a mão para que eu o acompanhasse. Nunca tinha visto ninguém tão ágil quanto ele, a não ser Selina!

Eu me aproximei de Waine comendo o sanduíche. “O Sr. sabia que eu estava lá o tempo todo?” Ele colocou o braço em volta de meus ombros. “Quando Harding me ligou dizendo que você não tinha chegado em Nova York não foi difícil deduzir onde você estaria. Deixei você ali como castigo por ter me desobedecido.”

Ele parou e ficou na minha frente. “Eu não posso ficar me preocupando com você. Por isso a melhor maneira de garantir que você não vai se meter em encrenca é coloca-lo embaixo de minha vista. Mas você vai ter que fazer tudo o que eu mandar está claro ?

Acenei a cabeça afirmativamente com um sorriso ma boca cheia de comida.

“Ótimo, então vamos pequeno pássaro, vamos meu pequeno Robin! Sim, Batman e Robin na sua maior aventura! Eu fui o companheiro do Batman! Não vestíamos fantasias bizarras, nem tínhamos bugigangas malucas, mas nossa causa era justa. E para você pode até parecer fanfarronice. Mas estávamos dispostos a morrer por ela !

CONTINUA...


 

 

 

Última Modificação: 17 Novembro2002